O Brasil não tem pena de morte.
O morto daqui nunca tem razão
O Brasil tem pena de patrão,
Empresário e banqueiro.
Pra ser digno de sentimento,
Tem que ter dinheiro,
Poder e influência
Em esfera nacional.
Hoje, anunciaram a notícia
Com rostos sérios no telejornal:
Na nota oficial,
O atirador militar reagiu,
Um homem morto
Com oitenta tiros de fuzil,
Estava desarmado,
Mas atirou primeiro.
E todo dia morre mais um preto,
Culpado por nascer brasileiro.
Com furadeira ou guarda-chuva,
Para justificar a versão
publicada na página policial.
O Brasil não tem pena da morte
De quem nasceu sem sorte.
Marginal.
Daniel M. laks
08-04-2019
segunda-feira, 8 de abril de 2019
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
As pessoas se reuniram nesse dia
Na frente da televisão
Sem grande dor ou comoção
Para ver a morte da democracia.
Foi transmitida em rede nacional.
Morreu sufocada,
coitada,
Num último suspiro sem palavra final.
Mas mesmo com seu corpo estirado
E seu legado negado
Especialistas garantiram
Que estava viva e pulsante no jornal
Por isso não houve velório,
Nem missa de sétimo dia.
Apenas o mesmo repertório
De mentiras sobre progresso e soberania.
Generais, juízes, banqueiros e companhia
ventrilocaram suas mentiras pelos jornalistas de plantão
No dia da morte da democracia
Transmitida ao vivo na televisão.
E a população se sentiu segura
Que tudo seguia o script de mais um dia normal.
Agora interrompemos esse poema
para um comunicado oficial.
Daniel M. Laks
10-09- 2018
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Poderia descrever a aparência de Helenice, começar pela cor dos olhos ou pelo jeito do cabelo, mas isso em nada ajudaria a explicar a existência de Helenice, a mãe, a morte e o canário. Se descrevesse o corpo de Helenice tinha por aqui tudo, de repente, resolvido. Haveria ali uma pessoa Helenice, com uma história de Helenice, que sempre faz, age e é Helenice. Estranho como toda a complexidade humana parece caber dentro da descrição de um corpo, seja no espaço que se inscreve ao esqueleto, no espaço que extravasa os sonhos ou na interseção dos dois. Mas não, Helenice não é a cor dos seus olhos, o jeito de seu cabelo ou o conteúdo de seus sonhos. Helenice queria inclusive ter mudado o corte de cabelo. Antes da mãe no hospital e das constantes brigas em família para decidir quem cuida do canário que precisa de comida, bebida e jornal. Chegou a sonhar que mudou o corte de cabelo. Marcou hora no cabelereiro mas não foi. Nem o sonho permitia algo diferente. Agora não poderia mais mudar o cabelo, mudar os olhos, mudar o sonho. Agora nada mais tinha importância se não a mãe, o canário e a morte, os três juntos na gaiola sem saber voar e ela Helenice, nem sonho nem corpo, vertigem. Mas, se a existência de Helenice não se explica pela soma das partes que compõem Helenice, Helenice também não se explica pelo nada. Helenice está antes ligada ao não ser. E o não ser é sempre muito diferente do nada. O nada é uma substância sem forma, sem sonhos e sem cor, enquanto Helenice tem a forma de Helenice, os sonhos de Helenice e a cor de vertigem: sensação de movimento oscilatório ou giratório do próprio corpo ou do entorno com relação ao corpo. Helenice é ritmo e vertigem. Helenice se dá conta que as batidas do seu coração marcam seu tempo no mundo. Cada tum-tum é um compasso a menos, um passo mais próximo da morte. E Helenice adquire as cores da fraqueza, do desmaio, do desfalecimento diante do conceito da morte, da mãe no hospital, do canário na gaiola e ela, Helenice, tonteira, tontura, desmaio. Antes, o ritmo para Helenice era mais do que a métrica para o abismo. Antes o ritmo era música e a música era mãe. Antes o canário era apenas o canário da mãe e era também música. E a mãe de Helenice passava os dias escrevendo partituras para piano. Mãe e canário passavam os dias localizando notas em linhas de grade. Agora que sua mãe está internada em estado grave no hospital e parece que não há mais nada a se fazer a não ser decidir quem toma conta do canário, as barras de compasso que marcam as partituras aparecem como algo de macabro para Helenice. A cifra do tempo em que ficamos na gaiola sem aprender a voar. E ritmo e morte se confundem com a imagem da mãe, que cada vez mais adquire as cores da vertigem tão próprias para tingir os olhos de Helenice. Helenice só queria trair a tudo. Trair a tudo e não cuidar do canário. Trair é sair da ordem e se entregar ao desconhecido, e o desconhecido pode ser tudo, menos um canário e a sua partitura, menos o hospital um passo mais próximo do abismo, menos a mãe na gaiola onde ventiladores artificiais e monitores cardíacos são a fronteira entre a música e a morte. Helenice só queria se entregar ao desconhecido que escapasse à própria ideia de morte. Helenice não imagina nada mais bonito do que partir para o desconhecido que a vertigem lhe impede de alcançar. E a vertigem, assim como a morte, não tem nem olhos e nem ouvidos para as súplicas de Helenice. E é a vertigem que impede Helenice de trair a tudo. E é a vertigem que dirige Helenice como um corpo em queda, pulsão e recusa, até a casa da mãe. E Helenice se aproxima da gaiola para achar o canário já sem música, canário prenúncio, canário morto minutos antes do anúncio da morte da mãe, no compasso pausado da fala da irmã.
Daniel M. Laks
23-09-2015.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Meu avô é pessoa de muitas histórias. Meu avô é pessoa que fez da sua vida a missão de contar suas histórias – contar para nunca esquecer: Meu avô sobrevivente. Meu avô das histórias que lhe foram impostas. Muita gente conhece as histórias do meu avô sobrevivente, do meu avô memória viva da barbárie humana. Mas o meu avô é toda a alegria de estar vivo apesar das histórias que lhe forçaram. Meu avô que sempre conta e sempre ri de qualquer piada. Meu avô cheio de amigos, compromissos e sempre cheio de novas histórias.
Teve uma vez que ele foi me buscar na escola. Eu estava saindo, do lado dele, quando um garoto chutou a minha mochila que estava nas minhas costas. Eu olhei pra trás, o garoto apontou paro lado e disse: -“foi ele”. Não fiz nada. Meu avô segurou a minha mão e ficamos parados ali. Quando o garoto passou, meu avô deu-lhe um chute na mochila, apontou para o lado e disse: -“foi ele”.
Meu avô torce pro Flamengo! Quando ele chegou no Brasil, meu tio avô Tio Maurício levou ele pro Maracanã para ver Vasco e América. Meu tio Maurício era Vasco e queria que meu avô fosse Vasco também. Meu avô viu aquele time com a cruz de malta jogando feio contra o América, América que o salvara da guerra. Meu avô viu o gol e gritou: -“AMÉRICA!!!”. A situação quase ficou feia, mas no final ficou tudo bem: deu vitória do América. Naquele dia ele disse pro Tio Maurício: -“Eu sou judeu, não vou torcer pro time da cruz!”. O América ganhou aquele dia mas já ia mal das pernas. Meu avô escolheu ser Flamengo!
Sushi era comida japonesa. Peixe cru com ou sem arroz. Meu avô odiava sushi. Isso foi ainda antes dele experimentar sushi pela primeira vez. A gente ia pro restaurante japonês e ele só comia macarrão ou coisa frita. Tinha nojo do sushi. Aí, uma vez, ele foi convidado para um jantar na casa do cônsul do Japão em homenagem ao aniversário do Imperador. O cônsul ofereceu sushi pra ele e ele não teve como negar. Pegou um, venceu o nojo e colocou na boca. A parir desse dia o meu avô ama sushi.
Quando eu era pequeno o meu avô era Vovô Quique. Eu estava chorando e ele não sabia mais o que fazer para me acalmar. Foi quando ele vestiu uma peruca, me pegou no colo e disse: -“olha o cabelo do Vovô Quique”. A foto dele de peruca comigo no colo está na sala da casa dele até hoje, perto de tantas outras fotos e tantas outras histórias.
Meu avô está internado na UTI do Copa D’or. O quadro dele se agravou nos últimos dias e ele teve que ser induzido ao coma e ligado ao ventilador mecânico.
Meu avô é parte de mim e de todo mundo que partilha das suas histórias.
Daniel M. Laks
8-07-2015.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Desculpem-me os bem intencionados, mas não, não somos todos Maju. Não somos todos Maju, porque eu, que sou homem e sou branco não compartilho do mesmo lugar de fala de uma jovem mulher negra. Não somos todos Maju, porque eu nunca saí na rua com medo de ser estuprado. Não somos todos Maju, porque eu nunca fui chamado de macaca. Não somos todos Maju, porque eu nunca fui chamado de preta filha da puta ou de crioula safada. Não somos todos Maju, porque nunca disseram que o meu cabelo é ruim e nunca duvidaram da minha competência dizendo que só cheguei onde cheguei por causa de cotas. Por isso não somos todos Maju. Porque pessoas como eu, por melhor intencionadas que estejam, jamais compartilharão do referencial para entender o que é estar na pele de uma mulher negra no Brasil. Sim, alguns de nós tentamos ser contra o racismo. Eu, pelo menos, tento ser contra o racismo. Mas ser contra o racismo sendo branco é reconhecer que o racismo é um sistema de oportunidades desiguais que permeia todas as nossas relações. E nesse sistema, não sou eu o prejudicado. Dizer que somos todos Maju é fingir que o preconceito nos atinge a todos da mesma maneira. Dizer que somos todos Maju é dizer que não existe racismo ou machismo, enquanto formas institucionalizadas no Brasil, que me enchem de privilégios enquanto desumanizam e subalternizam pessoas como a Maju. Dizer somos todos Maju é não reconhecer as regalias de ser branco num país racista. Dizer somos todos Maju é falsear o nosso próprio lugar de fala e perpetuar a absurda farsa de que vivemos em uma democracia racial onde o que aconteceu com a Maju só existe enquanto exceção. Por isso, não, não somos todos Maju. Eu não falo do mesmo lugar de uma jovem mulher negra, mas do lugar de um homem branco em um país racista chamado Brasil.
Daniel M. Laks
06-07-2015.
terça-feira, 9 de junho de 2015
O protesto de nenhuma minoria deve ser pautado pelas formas simbólicas da maioria. Não cabe aos brancos legitimar ou não o protesto de negros que lutam por igualdade de direitos numa sociedade racista. Não cabe a religiosos legitimar ou não o protesto de grupos ateus num Estado laico. Não cabe a heterossexuais legitimar ou não o protesto de grupos homossexuais em uma sociedade homofóbica. Não cabe aos homens legitimar ou não os protestos feministas em uma sociedade patriarcal. Não cabe a ateus legitimar ou não o protesto de religiosos em uma sociedade que assegura a todos o direito à livre expressão religiosa.
Quem foi que nomeou os grupos que se sentem no direito de dizer "isso não pode", "assim é falta de respeito e não protesto", "eles não podem usar esse símbolo para dizer isso"? Quem foi que definiu o que cada símbolo pode ou não querer dizer e quais os grupos que podem, legitimamente, utilizar cada símbolo? O arco-íris, por exemplo, representa um símbolo LGBT ou um símbolo hippie de psicodelia? Ou será que representa uma divindade do candomblé? Ou ainda, a aliança bíblica entre Deus e seu povo? Ou representa todas as alternativas anteriores e muitas outras ainda, dependendo dos olhos do observador? E a imagem de Jesus, representa o revolucionário libertário ou o conservador? Representa o discurso da paz ou a justificação para uma "guerra santa"? Representa a hierarquia e o direito de governança legitimado por uma ascendência divina ou o ideal de igualdade entre todos os seres humanos? Em suma, representa uma única coisa ou vive em um constante estado de tensão entre diferentes estratégias de representação, suscitadas por diferentes grupos, para legitimar as suas causas específicas?
Nenhum símbolo emana um significado direto e unívoco. Esses significados são, antes, atribuídos pelos diferentes grupos para legitimar as suas causas em uma verdadeira batalha por mentes e intelectos. Nos tempos onde as versões e as contraversões convivem em tensão à vista de todos, fica fácil de se perceber como a relação entre um símbolo e uma ideia é uma batalha ideológica. Não vejo nenhum problema em utilizar a imagem da crucificação de cristo em um protesto LGBT (e se visse, também não caberia a mim julgar se é legítimo ou não, se pode ou não), assim como também não vejo nada de estranho na reação de grupos religiosos (também não caberia a mim julgar se a reação de grupos religiosos é legítima ou não). Precisamos entender que a democracia tem que ser inclusiva e priorizar o debate ao invés do silenciamento do divergente. Precisamos também entender que não nos cabe definir quais são as formas válidas de protesto para grupos dos quais não fazemos parte.
Daniel M. Laks
09-06-2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
A asa da xícara e a redução da maioridade penal
Como bem se sabe, o hábito de beber chá chegou ao ocidente, via Inglaterra, a partir do contato com a China. A xícara tradicional de chá chinesa não possui(a) asa. Dessa forma, o indivíduo sente, através do tato, a temperatura do chá ao segurar a xícara. Se não estiver quente demais para segurar, também não estará quente demais para beber. Simples e engenhoso. O inglês, entretanto, ao ver a xícara e não entender a finalidade de seu design decidiu inventar a asa. Assim, ele poderia pegar a xícara tão logo o chá fosse servido, sem ter que esperar. Todo orgulhoso de poder segurar a xícara, tão logo o chá fosse servido, sem queimar os dedos, o inglês queimou a boca. A partir dessa fábula, criou-se a expressão “inventando asa para xícara”, em alguns círculos de intelectuais chineses, para descrever a tentativa de alguns grupos de propor alterações no que existe antes de entender o seu funcionamento, criando assim problemas maiores.
Nenhum país que reduziu a maioridade penal registrou diminuição nos índices de violência ou criminalidade. Nenhum órgão, nacional ou internacional (OAB, Unicef, Anistia Internacional, etc), que possui a função de fornecer critérios técnicos para se entender o caso concorda com a redução da maioridade penal. Mesmo com todas as estatísticas e todos os critérios técnicos defendendo que a redução da maioridade penal não é solução, ainda vemos políticos e populares defendendo a redução.
A tentativa de redução da maioridade penal no Brasil é a nossa asa de xícara. Teremos os dedos protegidos e orgulhosos ao segurar o chá queimaremos a boca.
Daniel M. Laks
01-06-2015.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Sempre que vejo um evento "marcha contra" ou "marcha a favor" de alguma coisa, me pergunto: Por que essa obsessão com essa ideia de marcha? Me soa um tanto rígido, um tanto militar, um tanto ligada à ordem, um tanto avessa à nossa alegria. Devíamos criar um baile, uma dança, um desfile, uma festa pública a favor ou contra. Deixemos que os soldados e demais herdeiros da imutabilidade carrancuda da ordem marchem. Enquanto isso, professemos a nossa alegria também na política, façamos um carnaval de reivindicações sociais. Sejamos novamente mais antropófagos, mais "encontrados e amados ferozmente" (O.A) e deixemos que a nossa alegria seja "a prova dos nove" (O.A).
(Os dois excertos seguidos da abreviatura O.A se referem a trechos do "Manifesto antropófago, de Oswald de Andrade.)
Daniel M. Laks
26-02-2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Quase tudo no Brasil é visto como um problema de segurança pública. A falta de água é um problema de segurança pública, as questões de saúde são problemas de segurança pública, os direitos civis são um problema de segurança pública, a desigualdade social é um problema de segurança pública, etc. A solução vislumbrada para os problemas de segurança pública é sempre o aumento do efetivo policial e da repressão. A única coisa que nunca é vista como um problema de segurança pública é a violência endêmica da Polícia Militar, que é o avesso da segurança pública. Que bom, se a violência endêmica da Polícia Militar fosse vista como um problema de segurança pública iam querer aumentar o efetivo policial e a repressão para solucionar mais esse problema de segurança pública.
Daniel M. Laks
22-01-2015.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
As cidades do Brasil precisam de suas memórias negativas. Para que se possa ver e prestar reverência aos corpos torturados, mutilados, desumanizados e esquecidos pela rotina histórica das nossas urgências. As cidades do Brasil precisam de suas memórias negativas à vista de todos. Para que se possa lembrar sempre o sangue que mancha nossas histórias, dar linguagem e voz ao que há tanto é recalcado e destruir os bustos heróicos que foram erguidos para nossos carrascos. As cidades do Brasil precisam de suas memórias negativas à vista de todos como memórias negativas.
Daniel M. Laks
23-12-2014.
sábado, 20 de dezembro de 2014
Porque os judeus passaram 40 anos no deserto? Por que cada hora era um que levantava e dizia que era ele que sabia o caminho pra sair dali.
Um judeu perdido em uma ilha deserta constrói duas sinagogas: uma é a que ele frequenta e a outra é a que ele nunca mais vai por os pés.
Eu me lembro dessas duas piadas da minha infância, desde sempre. Acho que são anedotas do livro “Humor Judaico – do Éden ao divã”, mas não sei bem se são. Eu contei como me lembrava, como ficaram em mim desde sempre. Ficou na cabeça de serem do livro, mas talvez tenham sido contadas pelo meu pai ou pelo meu avô. Ou então eu ouvi nesses lugares de sempre. Isto aqui não é um documento de autoridade que está sempre preocupado com leis autorais e genealogias de propriedade. Não importa mais do que saber que são piadas antigas e recolhidas por alguém, que fazem parte de uma antologia de humor judaico desde sempre. E são piadas que eu me lembro desde muito, desde um tempo que agora me parece sempre. Porque o sempre é sempre algo que parece e porque o sempre também sempre muda. E sempre que a gente traz sempre com a gente, a gente vai descobrindo coisas diferentes dentro da mesma coisa. Sempre. Acontece sempre. E aí, agora que eu escuto tanta gente falando “que os judeus fizeram ...” (isso) “os judeus fizeram...” (aquilo). “Os judeus sempre...” Eu sempre lembro das duas piadas e me pergunto: e todos concordaram uns com os outros? Concordaram sempre? Eu penso também nessas piadas sempre que eu escuto alguém, dentro da comunidade judaica, dizendo que precisamos de uma única voz para nos representar enquanto judeus, cada vez mais, talvez para sempre. Essas duas piadas, para mim, sempre falaram de pluralidade de pensamento dentro do pensamento judaico. Sempre falaram da possibilidade de discordar do outro como fundamento. Isso sempre me fez ver a minha herança judaica como um direito ao meu modo de ver o mundo. E sempre que conheci um judeu normativo eu pensei que ele não sabe de nada, quem sabe o caminho pra sair do deserto sou eu e eu nunca mais quero colocar os pés na sinagoga que esse senhor frequenta! E olha que não foram poucos os que eu conheci e os que conheço desde sempre. E desejo sempre que possam sempre discordar de mim, para sempre. Por que é a pluralidade que nos define, desde sempre. E não é um Estado, uma política, um exercito, uma guerra que vai falar por todos nós. Isso nunca!
Daniel M. Laks
20-12- 2014
sábado, 26 de julho de 2014
Existe uma pluralidade enorme no pensamento judaico. Isso pensando exclusivamente na religião judaica, ainda sem colocar na equação a política dentro dos diferentes governos israelenses, que é um Estado judaico. Claro está que um governo específico não representa a totalidade de sua população e muito menos toda uma religião e uma etnia que são muito maiores e mais antigos do que o país em questão e, por conseguinte, qualquer um dos governos deste país. Existem diversas correntes religiosas dentro do judaísmo que defendem interpretações variadas da Torá e adotam hábitos de vida diversos. Tem sinagogas onde a mulher fica separada na parte de trás e acima e não pode ter nenhum cargo litúrgico. Tem outras sinagogas onde homens e mulheres rezam juntos e as mulheres podem celebrar liturgias. Tem judeus que vivem de cabeça coberta e judeus que não usam o kipá no dia a dia. Não podemos achar que só é judeu de verdade quem interpreta desse jeito em detrimento daquele ou quem se veste desse jeito em detrimento daquele. Seria mais ou menos como dizer que só é índio quem vive em oca e de tanga na Amazônia. A religião judaica convive com diferentes correntes de interpretação dos textos sagrados e com diferentes hábitos diários. A interpretação dos judeus ortodoxos do vídeo é baseada na passagem bíblica que diz que a terra santa (eretz Israel) será apontada pelo messias, quando ele vier. Como o messias, dentro da crença judaica, ainda não veio para apontar a terra santa, o povo judeu continua na condição de um povo sem terra. Essa interpretação, entretanto, não exclui um vínculo histórico dos judeus com a terra que pertenceu aos seus ancestrais, na Judeia. Não exclui um vínculo histórico entre judeus e Jerusalém. Da mesma forma que os Muçulmanos também tem um vínculo histórico com Jerusalém e os cristãos tem um vínculo histórico com Belém. São os locais considerados como berços e terra ancestral. Aí que o caldo começa a engrossar e a trama começa a se tornar complexa. Quando o rabino no vídeo fala sobre os judeus não terem reivindicação sobre aquelas terras ele está se referindo especificamente a uma questão contida na Torá, não está considerando povos nativos. Sempre houve judeus sefaradim naquela região e sempre houve diversos outros povos que conviveram com diversas crenças. Aliás, nunca houve um estado palestino naquela região. Gaza fazia parte do Egito e a Cisjordânia fazia parte da Jordânia. As diferentes regiões da palestina eram habitadas por diferentes grupos étnicos, alguns lugares mais homogêneos do que outros. Tinham lugares com maioria de judeus sefaradim, lugares com maioria de drusos, lugares com maioria de beduínos, etc. Aquela região estava sobre domínio britânico desde 1923 até a fundação de Israel. Agora coloquemos no meio de toda essa questão as dificuldades políticas de um Estado nação. Israel é uma realidade, é um país com direito de existência, reconhecido por diferentes nações do mundo (inclusive pelo Brasil) que existe desde 1948. Dizer que Israel é uma invasão me parece um discurso meio vazio. O Brasil foi uma invasão às terras indígenas, aliás, todos os países americanos são invasões a terras indígenas. No caso dos EUA ainda teve a incorporação das terras da Califórnia que pertenciam ao México. A Austrália é uma invasão às terras aborígenes. Em suma, nem toda etnia tem um território no mundo e em muitos lugares etnias diferentes convivem em um mesmo Estado Nação. Muitas fronteiras de Estados separaram etnias. Pensemos nos países africanos, por exemplo. Algumas soluções são pensadas para solucionar a questão Israel- Palestina. As principais, ao que me consta, são dois Estados independentes e um único Estado para os dois. Não acho que, com os grupos atuantes dos dois lados na cena política, podemos propor seriamente a solução de um único Estado. Nem o governo do Benjamin Netanyahu e nem o Hamas estão dispostos à solução diplomática. Dentro de tudo isso, acho que devemos sempre ter em mente que um governo específico não representa a totalidade do povo de um país (já pensou julgar todo brasileiro dos anos 60 e 70 pelas ações do governo militar?). Um país não representa a totalidade do pensamento da religião oficial daquele país (já pensou julgar todos os católicos do mundo pelas ações desse ou daquele país católico?). O vídeo é muito legal para mostrar a pluralidade do pensamento judaico e, na minha opinião, serve para frear o discurso antissemita de que “os judeus estão fazendo na palestina o mesmo que os nazistas fizeram com eles”, o discurso antissemita que justifica as pichações de “assassinos” no museu judaico de São Paulo, que advoga a favor do confisco dos bens de todos os judeus brasileiros como forma de pressão a Israel, o discurso que promove ataques a sinagogas e lojas de comerciantes judeus no Brasil e no mundo. No mais, eu sou contra a guerra e tenho diversas críticas a um governo de extrema direita israelense, acho uma incoerência histórica. Sou a favor de um Estado Palestino que conviva em paz com Israel e que não seja influenciado nem dominado por Israel ou pelo Hamas. Mas acusar Israel de ser o único mauzinho nesse história é desconhecer o Hamas por completo. Advogar que Israel não tem direito de existir e que é uma invasão, ao meu ver, não oferece saída para o conflito. Pelo contrário, só justifica um dos lados como certo no seu direito de reivindicação bélica e, para mim, a guerra não é a resposta.
Daniel M. Laks
26-07-2014.
domingo, 15 de junho de 2014
“Uma vez o Juscelino foi vaiado e disse: “Feliz do país que pode vaiar um presidente”. Aí foi aplaudido. Precisa ser esperto para reverter a vaia!” (SIMÃO, José. “Copa! Dilma muda para Palmas”. In: Folha de São Paulo, 14/06/2014).
Se eu estivesse no estádio, vaiaria a Dilma. Se o Aécio fosse o presidente eu vaiaria mais alto ainda! Que bom que ainda podemos vaiar um presidente sem sofrer perseguição política! Em meio a tantos direitos civis desrespeitados por todos os lados, é muito bom ainda poder ter alguma liberdade de expressão! Queria que mais gente defendesse a liberdade de expressão, mesmo quem não concorda com as vaias. Acho que poder falar é mais importante do que concordar com a mensagem. Vejo os debates políticos se radicalizando e as pessoas orgulhosas de seus preconceitos, por todos os lados. Tem os que dizem, de um lado, que: “isso é coisa de petralha”, “isso é esquerdopatia”, “isso é coisa de preto”. Do outro lado a estereotipagem não é muito diferente: “isso é coisa de coxinha”, “são esses evangélicos manipulados”, “é essa elite branca”. Fica um lado desqualificando o outro através de estereótipos, cada qual com orgulho dos seus preconceitos, sem entender que todos juntos somos um país. Enquanto isso, não discutimos nenhuma proposta séria de mudança, não consideramos as reivindicações dos diferentes estratos da sociedade, não nos importamos com o desrespeito aos nossos direitos constitucionais e nos contentamos em escolher o candidato menos pior para governar o país. Precisamos de mais democracia no nosso dia a dia e a postura autoritária de desqualificar o argumento do outro através de estereótipos não ajuda em nada!
Daniel M. Laks
15-06-2014.
sábado, 14 de junho de 2014
Vejo as pessoas muito mais revoltadas com as vaias contra a Dilma do que com as prisões arbitrárias de jornalistas, professores e manifestantes. As pessoas estão mais revoltadas com vaias em um jogo de futebol do que com o fato de pessoas no exercício do seu trabalho ou no seu direito de manifestação terem sido torturadas por policiais militares. Ví falas de políticos diversos sobre o absurdo de se vaiar a presidenta, não vi nenhum vídeo de representantes públicos exigindo a punição exemplar dos policiais que prenderam arbitrariamente e espancaram professores, prenderam arbitrariamente e espancaram a jornalista que fazia cobertura da manifestação, dos policiais que assassinaram a Claudia e tantos outros. Alias, lembro do depoimento da nossa presidenta quando um policial tomou uns tapas dos Black blocs exigindo punições exemplares para estes. Gostaria de ver, por toda a história da Dilma, ela como protagonista da luta pela necessidade de se punir exemplarmente policiais assassinos e torturadores, policiais que forjam flagrantes e fazem prisões arbitrárias! Expulsar da corporação e prender! Afinal, bandido bom é bandido preso! Por favor, corrijam-me se eu estiver equivocado. Se houver um depoimento da Dilma, do Lula ou de outro político que se importe mais com tortura, prisões arbitrárias, estilhaços de bombas, assassinatos diversos nas comunidades e com a necessidade de expulsar e punir exemplarmente esses bandidos fardados que chamamos de polícia militar, por favor, compartilhem comigo. No mais, para mim, foda-se que vaiaram ou aplaudiram durante uma partida de futebol. Foda-se se era todo mundo branco ou se o Cafu e outros negros estavam também neste setor da arquibancada. Foda-se tudo isso, porque tem gente sendo presa arbitrariamente, tem gente sendo torturada, tem gente sendo assassinada. Tudo isso por agentes do estado e isso me revolta muito mais do que vaias ou aplausos em uma partida de futebol!
Daniel M. Laks
14-06-2014
sábado, 17 de maio de 2014
domingo, 20 de outubro de 2013
Sorte de quem tem
Hoje fui visitar uma professora amiga que combinou de me emprestar alguns livros. Quando cheguei ela foi logo me dizendo:
- espero que não tenha medo de cachorro.
-não, não, adoro animais, respondi com um sorriso no rosto.
Assim que eu entrei, uma cachorra golden retriever que estava na cozinha começou a latir sem parar. Tentei fazer carinho nela para ver se ela se acalmava, mas meu contato só a deixou mais agitada. Durante os quarenta minutos da minha visita, a cachorra permaneceu muito excitada e fez muita bagunça na cozinha. Enquanto conversávamos ela latia. Depois parou de latir, fez suas necessidades ali mesmo, deitou no chão e ficou olhando para a nossa cara.
- Ai meu deus, essa cachorra já cagou o chão de novo. Estou ficando doida com ela.
- Ela ainda está aprendendo a usar o banheiro? Perguntei meio sem saber o que dizer.
- Na verdade ela é do meu filho. Ele foi viajar e não tinha com quem deixar. Aí deixou comigo. Graças a Deus ele volta mês que vem. Já não aguento mais chegar em casa tarde da noite da universidade e ainda ter que limpar coco pela cozinha inteira.
- É. Nossa, e ela é bagunceira mesmo. Isso deu pra perceber.
-É sim, ela é bastante. Mas sabe? Isso pra mim é um gesto de amor. Eu estou ajudando meu filho que está longe. E ele ama tanto ela. Ela é também um pouco do amor dele perto de mim.
Saí de lá com dois livros incríveis nos braços e um vazio sufocante no peito.
Daniel M. Laks
18/10/2013
sábado, 5 de outubro de 2013
Quase que ando sozinho por tantos lugares,
Passei hoje distraído e jurava que era você.
Vê se pode? Agora de saudade te vejo pelas esquinas...
(Respira baixo para as pessoas,
É para os deuses que se sopram as melodias).
Mais um dia de lágrimas presas nas ventanias.
Sempre teve muita secreção no meu verso.
Mais um copo de cerveja que por pouco hoje não é sábado.
Desculpa se evito seguir as rimas,
Mas não sei se hoje é noite de lua...
Por enquanto uma pequena balada de amor e de saudade,
Daqui a pouco eu chego e te tomo de novo nos meus braços.
Daniel M. Laks
06/10/2013
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Quando primeiro se aproximou da ideia de praticar kung-fu, colheu a informação que existia o kung-fu e o kung-fu tradicional. Decidiu prontamente pelo kung-fu tradicional, que parecia muito mais interessante, mesmo sem saber muito bem o que significa essa tal de tradição. A primeira resposta veio inclusive antes da pergunta serpentear na sua cabeça: o tradicional é aquele que os monges treinavam no templo. Assim, alimentado por filmes de arte marcial e seriados de televisão, se inscreveu na academia e foi aos poucos transformando seu jeito de andar, de falar, seu jeito de se vestir e demais hábitos de vida diária numa cópia de monge chinês com a quase inconsciência de ser imitação que sustentava com pilares tortos a sobrevivência do reflexo. Não se dava conta, mas a primeira abordagem ao conceito de tradição revelava uma ideia velha, imperturbavelmente ela mesma, quase inexaurível e quase eterna, afastada de qualquer solavanco, avessa a qualquer possibilidade de ruptura. Deve ter sido a ausência de movimento que condenou a ideia à estagnação, depois veio o fim da vida e se alimentou da carcaça. Nessa altura, ele teve que se afastar pra poder ver, e mais de longe o reflexo virou sombra. Foi muito depois que aprendeu que toda tradição nasce de uma ruptura. Uma onda que traz movimento ou um movimento que traz onda, engolindo as práticas anteriores para que o novo possa estabelecer-se como tradição. A ruptura que germina a tradição é ainda o movimento das rodas dentadas das suas entranhas, a cada geração um novo surge para conservar-se tradicional. Já os gregos haviam percebido a coesão em conflito dos conceitos opostos, esse jogo de ideias que se pertencem e se reclamam, que nascem de uma mesma raiz e se contrapõem para construir uma unidade dinâmica. A palavra tradição vem do latim: traditio. O verbo é tradire, e significa principalmente entregar, designa o ato de passar algo para outra pessoa, ou de passar de uma geração a outra geração. O verbo tradire tem também relações com o conhecimento oral e escrito. Isso quer dizer que, através da tradição, algo é dito e o dito é entregue de geração em geração. Bem certo que os gregos e o latim têm muito pouco ou nada a ver com os chineses, e como nunca estudou chinês para saber, não tinha a menor ideia da origem da palavra tradição no idioma asiático, e tampouco, se os possíveis usos e significados entrelaçam-se nas línguas diferentes. Ainda assim, aprende com o kung-fu de seu shi-fu a linguagem para expressar o que é seu próprio, e aos poucos se sente inscrevendo e sendo inscrito no conceito de tradição que cabe nas suas ideias.
Daniel M. Laks
02/09/2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Versos de infância
I
Em graus da gente,
Que a gente esconde da gente,
E se esconde da gente, não rima,
Vento não rima,
No cais não rima,
Vela apaga no vento
E quebra na onda, não rima,
Que é turvo escrever no mar.
II
Tem sempre um carinho que não dói de ser carinho
Porque pra ser carinho não tinha que doer
Mas se dói a dor de ser carinho
Pode ser carinho sem carinho ser.
III
Na base do copo FAB: 19 08 11 14:56 VAL: 02 11 11
SERAC que o copo era de requeijão copo de vidro desses que tinha algo dentro e tinha
algo fora que junto com todo o resto não se destaca em nada de todo o resto e
nem de mais nada e nem de mais resto na desordem suturada das coisas que a
gente faz pilha na mesa e espinha na cadeira do lado que já é estante que tudo
tem um deslugar no seu lugar.
Daniel M. Laks
22/06/2012
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