sexta-feira, 6 de março de 2009
Imagem
Os meus versos têm pressa.
Debaixo dessa armadura,
Sou em carne viva.
Às vezes reflexo,
De uma imagem compulsiva,
Escárnio das buscas que me curvo.
Sou aquele que tem olhos claros,
Mas enxerga turvo.
Daniel M. Laks
06/03/2009
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Descontinuidade
Esboçou sarcasmo entre os lábios e riu de si mesmo, como se de repente recuperasse sua sobriedade de idéias. Criara expectativas, plano de ação, diferentes opções para apresentar, havia pensado o dia inteiro no que ia dizer. Agora recobrava a perspectiva descrente que preferira adotar, recebera mais uma confirmação de sua necessidade. Entendia sua parcela de responsabilidade nas decepções, afinal, faltara-lhe inteligência visceral para ler as pequenas mensagens deixadas entre cada abrir e fechar de boca e levianamente deixou-se acreditar no que desejava que acontecesse. Não importava mais, havia preenchido as lacunas de seu desencontro sozinho, e não lhe fazia diferença a exatidão de suas respostas, para ele era tão verdade quanto qualquer outra construção lógica que acreditasse. Pensou na última vez que havia desbravado as barreiras de seu desinteresse alheio e convidado alguém que lhe remete-se a algo genuíno para sair, passaram-se cinco meses. Interrompeu suas abstrações anacrônicas com um cigarro. Algo no gesto de soprar a fumaça lhe garantia um aspecto analítico. Olhou para a garrafa de vinho que comprara, preferiu bebê-la a deixar que avinagrasse por um telefonema não atendido, por um combinado não cumprido. Caminhou lentamente até o armário da sala onde guardava o par de taças de cristal que esperava pacientemente ser partilhado, mas só foi capaz de demarcar a amplitude de sua solidão quando viu uma das taças escorrer por entre seus dedos e se espalhar no chão ocre de taco envernizado.
Daniel M. Laks
28/02/2009
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Desencontro
Daniel M. Laks
18/02/2009
Estradas cruzadas do meu destino
Das cartilhas de boas maneiras.
Aprendi a interpretar com voz tensa
O trânsito das pequenas coisas ao meu redor.
Apressado, saqueei parte do meu passado,
Para que a ausência não se alimentasse de mim.
Esperei do tempo paciência e perspectiva.
Hoje acordei de frente as estradas cruzadas do meu destino.
Daniel M. Laks
18/02/2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Fragmentos
Divido pela matilha de seres,
Que estruturam minha sombra,
As camadas internas
De intimidade compulsiva e
Ironias casuais.
Navego em hiatos noturnos,
Espreitando na orla pálida
De uma lua apagada.
E desperto ciente
Da vida das árvores,
E dos pombos que cercam as torres
Que limitam os homens.
O ar metálico pressiona
O mundo contra meu rosto,
E carrega ondas de rádio e televisão
Para desfocar os sentidos
Dos que interrompem seus sonhos.
Daniel M. Laks
27/01/2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Versos, estrelas, flores, cigarro e chuva
Não trago comigo grandes ambições,
Tenho como única virtude
As dúvidas sobre minha pessoa.
Às vezes olho reto, mas não vejo a rua,
Prefiro admirar as estrelas.
E penso na distância das coisas que me encantam,
No tempo que leva pra que me sejam visíveis.
Será que aquela estrela ainda está viva?
Será que o brilho que me cativa não existe mais?
Aquela estrela morta me lembra
A última mulher que me apaixonei.
Já não tem mais rosto ou brilho.
A imagem que me assombra muda de face
Conforme mergulho em novas paixões.
Hoje comprei flores baratas no mercado.
Estavam com o nome e o preço errado.
Mas o perfume e a beleza
Impecavelmente certos pra essas flores.
Depois começou a chover torrencialmente,
Meu corpo, minhas roupas e as flores
Faziam parte do mesmo veio de rio
Que desaguava nas ruas engarrafadas.
Como não tinha mais estrelas.
Acendi um cigarro,
E me misturei às nuvens e ao vento
Com a fumaça que soprava.
Daniel M. Laks
22/01/2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
O Galo (para meu irmãozinho que vai nascer)
Pra cantar pro sol,
E enquanto dormia, sonhava
Que o sol esperava o seu cantar
Pra poder raiar o dia.
Mas em seu sono tolo,
O galo não sabia
Que na granja da família,
Galo que tarda a levantar
Não tem outra serventia
Senão sopa pro jantar.
Daniel M. Laks
16/01/2009