quinta-feira, 26 de março de 2009

Resposta à moça dos muros

Meus contos de fada
Nunca tiveram final feliz,
Dos meus romances
Fui apenas anti-herói.

Atravessei páginas
De longas estórias repetidas.
Fui o asno de penas,
Que pensava poder voar.

Queimei toda matéria
Do meu mundo imaginário.
Esqueci o nome verdadeiro
Das musas que não se personificam.

Agora busco figura palpável.
Algum reflexo de um ser real
Entre os tijolos da moça dos muros.
Hoje procuro o que nunca perdi.

Daniel M. Laks
27/03/2009

terça-feira, 24 de março de 2009

Se algum dia eu for poeta

Se algum dia eu for poeta,
Moça esteja certa,
Que te escrevo verso ou algo assim.
Com rima e forma concreta
Pra te falar de coisa incerta,
E te fazer zombar de mim.

Prestaria atenção pra retratar
Unhas afiadas e suavidade no olhar.
Daria à noite um tom acentuado,
E talvez descrevesse seu jeito felino,
Com um blood Mary apimentado,
Pra melhor compor o figurino.

Falaria que tem mais lirismo nos versos
Que nas buscas dentro de mim.
E poderíamos rir das rimas concretas,
E dos formatos dispersos
Das pessoas incertas.
Se algum dia eu for poeta ou algo assim.

Daniel M. Laks
24/03/2009

terça-feira, 17 de março de 2009

Papel de parede

Palavras desenhadas
No papel de parede
Em arranjo conciso
Pro silêncio demarcar.

Tom sobre tom,
Pra colorir seu olhar,
Disfarçado atrás
Dos óculos escuros.

A moça tem muitos muros.
Tem equilibrista
Na corda bamba,
Malabarista no sinal.

Ela caminha pelas calçadas,
Esboçando um ar casual,
Indiferente a suavidade concreta,
Que precede caminhos futuros.

Fora do papel de parede,
Sem corda bamba,
Malabaristas no sinal,
E muros.

Daniel M. Laks
17/03/2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Imagem

Nunca aprendi a catar feijão,
Os meus versos têm pressa.
Debaixo dessa armadura,
Sou em carne viva.
Às vezes reflexo,
De uma imagem compulsiva,
Escárnio das buscas que me curvo.
Sou aquele que tem olhos claros,
Mas enxerga turvo.

Daniel M. Laks
06/03/2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Descontinuidade

Esboçou sarcasmo entre os lábios e riu de si mesmo, como se de repente recuperasse sua sobriedade de idéias. Criara expectativas, plano de ação, diferentes opções para apresentar, havia pensado o dia inteiro no que ia dizer. Agora recobrava a perspectiva descrente que preferira adotar, recebera mais uma confirmação de sua necessidade. Entendia sua parcela de responsabilidade nas decepções, afinal, faltara-lhe inteligência visceral para ler as pequenas mensagens deixadas entre cada abrir e fechar de boca e levianamente deixou-se acreditar no que desejava que acontecesse. Não importava mais, havia preenchido as lacunas de seu desencontro sozinho, e não lhe fazia diferença a exatidão de suas respostas, para ele era tão verdade quanto qualquer outra construção lógica que acreditasse. Pensou na última vez que havia desbravado as barreiras de seu desinteresse alheio e convidado alguém que lhe remete-se a algo genuíno para sair, passaram-se cinco meses. Interrompeu suas abstrações anacrônicas com um cigarro. Algo no gesto de soprar a fumaça lhe garantia um aspecto analítico. Olhou para a garrafa de vinho que comprara, preferiu bebê-la a deixar que avinagrasse por um telefonema não atendido, por um combinado não cumprido. Caminhou lentamente até o armário da sala onde guardava o par de taças de cristal que esperava pacientemente ser partilhado, mas só foi capaz de demarcar a amplitude de sua solidão quando viu uma das taças escorrer por entre seus dedos e se espalhar no chão ocre de taco envernizado.


Daniel M. Laks

28/02/2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Desencontro

Olhou pra ela disfarçando qualquer coisa que pudesse transparecer. Trazia dentro de si uma baixa estima que projetava em tudo para confirmar a necessidade de seu cinismo. Entendia, observando gestos corriqueiros, quase todos que o cercavam, mas nunca havia sido capaz de entender a si mesmo. Talvez por isso tivesse se interessado por ela tão abruptamente, não era capaz de decifrá-la e tinha dúvidas se realmente queria, afinal, porque perder o objeto de seus devaneios? De repente ela se aproximou, contraiu a boca como se fosse sorrir, não sorriu. Perguntou algo que ele não foi capaz de entender. Estava completamente hipnotizado pelo jeito moderado da falta de compromisso da moça, e pela cor do batom em sua boca, que para ele era vermelho, mas na verdade chamava-se magenta, dessas coisas que falta sensibilidade aos homens pra perceber. Ela cortou-lhe a fantasia com uma interjeição. Ele fingiu procurar o telefone no bolso esquerdo, como se talvez a resposta para aquela pergunta estivesse também guardada em seu bolso esquerdo. Por fim respondeu de forma aberta, dizendo um mais ou menos e fazendo-lhe a replica, e você? Não esperou para ouvir resposta, voltou a mergulhar em seus delitos de fragilidade dominante. Observava a maneira como a moça talhava o ar a sua volta com movimentos contidos enquanto roubava toda a graça que conseguia captar. Ponderava se ela seria capaz de entender a maldição de sua beleza. Lembrou-se da fé que mantinha em suas descrenças, por vezes lente pra amplificar seus processos e em outras uma neblina alva para fazê-los desaparecer. Pensou em convidá-la para sair. Se recebesse um sim não precisaria mais de seu cinismo. Mas preferiu mergulhar em sua caneta repleta de cenas e apenas contrair o rosto, sem sorrir.


Daniel M. Laks
18/02/2009

Estradas cruzadas do meu destino

Despi-me de toda aparência anônima
Das cartilhas de boas maneiras.
Aprendi a interpretar com voz tensa
O trânsito das pequenas coisas ao meu redor.
Apressado, saqueei parte do meu passado,
Para que a ausência não se alimentasse de mim.
Esperei do tempo paciência e perspectiva.
Hoje acordei de frente as estradas cruzadas do meu destino.

Daniel M. Laks
18/02/2009