quinta-feira, 23 de abril de 2009

Grito do anúncio primeiro

Deu as mãos ao espelho,

E esperou que as linhas cruzadas

Da palma esquerda entrecruzassem

Com as linhas cruzadas de seu reflexo.


Depois trocaram calor até o ponto

Em que cada um perdera parte do que era seu,

E assumira pra si parte do que era do outro.

Numa expressão matemática onde 1+1=1.


Cada qual e o mesmo

Entenderam que só existe noite na terra,

Nas estrelas nunca é noite.


E abandonaram

(cada um no seu lado do espelho

E um único nas diagonais-tangentes)

A imagem-sonâmbula que lhes atravessava

Os olhos até acariciar a nuca.

E finalmente desenharam o esboço objeto (objetivo

Do provisório) definitivo.


Daniel M. Laks

23/04/2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um recado entre chaves para mim

Quando a hora for morta, acorda!

Os demais reflexivos

Jazem algemas da dialética pueril

Dos espelhos estáticos.


Quando a palavra for impossível, acorda!

Os olhos que recusam a cegueira

Nas ruínas das imagens congeladas,

Carregam brancura para a sublimação das ceras elementais.


Quando a pedra da noite for precisa, acorda!

Pois no dia que o tempo te resumir orgânico,

E suas molduras escorrerem em ecos para o esquecimento:

Poderá então finalmente dormir nas cinzas veladas dos umbrais.


Daniel M. Laks

20/04/09

sábado, 18 de abril de 2009

Nunca li José Cardoso Pires

Às vezes visito o purgatório dos anjos,

Sempre com um sorriso no rosto.

O tempo é sonâmbulo,

Eu sou insone.


O distanciamento é necessário

Para a visão crítica da realidade.

Por isso me torno marginal,

Com discursos elípticos condensados

Que não aceitam a sintaxe dos compromissos.


O ar é rarefeito e as hemoglobinas insuficientes.

Tenho apenas movimentos furtivos,

Pra recolher pistas e examiná-las em segredo.

Tenho a independência de não interpretar

Os acontecimentos postando-me no centro.


Escrever é escolher, selecionar,

Ser brincante em memória descritiva.

Afinal, caminhar é ter falta de lugar seguro,

E minhas fraquezas são representadas

Pela instabilidade das acomodações.


Talvez algum dia descubra que existem

Verdades obliquas no mundo

Muito além da irmandade entre morte e honra.

Cifras, tempo e versos são elementos polifonais,

E minhas construções cimentadas em

Palafitas de pontos de vista.


Às vezes finjo comunicar o incomunicável:

A universalidade singular

E a singularidade universalizante

Das sombras que compõe o portador da luz.


Mas por agora,

deixe-me apenas passar,

Oferecendo uma exaltação utópica

Àqueles capazes de inferir.


Daniel M. Laks

18/04/2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nove gotas

Só existe verdade na ficção.

De resto, somos mentirosos funcionais,

Personagens ocos.


Vivemos em busca da grandeza que coroará nossa lapide.

Com relógios de pulso para a ilusão do controle,

E a prole para a ilusão da continuidade.


Só existe verdade na ficção.

Nove gotas de cianeto e meio copo d’água:

Nasceu poeta, viveu descartável e morreu de parada cardíaca.


Daniel M. Laks

15/04/2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

Em folhas avulsas de papel

Trago um mundo portátil,

Em folhas avulsas de papel.

Com reinos separados

Por oceanos desorganizados,

Da escrivaninha do quarto.


Para quando me sinto farto,

Das deusas cegas do mundo real.

Tenho palavras pinceladas,

Escadarias encantadas,

E mascaras de carnaval.


E quando a insônia que atravessa meu caminho

Compõe minha escudeira fiel.

Logo antes de me sentir triste ou sozinho,

Lembro que trago um mundo portátil

Em folhas avulsas de papel.


Daniel M. Laks

14/04/2009