quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Daquilo que se perde além dos sonhos

Foi quando um eu,

Que já não era mais eu mesmo

Me tomou de assalto.


Perdi a fala e tudo aquilo

Que se tornara voz.

Voltei a escrever,

Pois esqueci meu caminho

Em passos tortos.


Alguma sombra

Amarga e densa,

Daquelas que não se projetam,

Reconheceu meus olhos no espelho.


Reencontrar um eu antigo

Foi perder uma parte nova de mim.


Daniel M. Laks

23/12/2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Carta a um amigo ou o começo do fim

Querido amigo,

Escrevo no auge da minha tristeza sentida.

Deixei fragmentos de mim quando a porta se fechou,

Em um poema ordinário,

Pregado a taxinhas num quadro de cortiça,

E dois livros dos meus autores favoritos.


Os outros pedaços foram escorrendo

Pouco a pouco de mim pelas esquinas,

Na irregularidade do asfalto,

Ou nas metáforas que uso

Para não expressar o que quero dizer.


Mas aquela coisa claustrofóbica,

Asfixiante e incomunicável

Permanece nas lágrimas contidas

E nos sinceros versos tristes

Que não te explico nessa carta.


Daniel M. Laks

23/12/2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Nos corredores do não pertencimento

Repara bem, eu não sei que lugar é esse,

Mas não é o que eles dizem ser.

Escuta, o som da rua se repete.


Me dá um cigarro?

Eu parei de fumar.


Eu estou bem, acho que tenho leucemia

E problema no coração.

Avô, vê lá que remédios vão me dar.


Não, não Gustavo, aí não pode entrar.

Só quando a moça chamar.


Me dá um cigarro?

Eu parei de fumar.


Vem pra cá filho, vem.


Minha vida começou em 1981.


Olha avô, lá ninguém tinha amigos.

Se alguém fosse amigo, dava uma bola

Pros quatro meninos brincarem.

Eu vi, eles brincavam com pneu e arame.


Foi em 81,

Quando o ônibus matou minha mulher

E me tirou minhas filhas também.


Não, não, à força não!

Eu vou chamar a polícia.


Vocês fazem o que?

Vocês estudam?

Estudam o que?


Tem dez anos que eu estou aqui.


Me da um cigarro?

Não, não, eu acendo ali.

Obrigado... obrigado...


Avô, cuida de mim e da minha mãe.

Os meninos estão bem.


Você não estava lá.


Assim a senhora vai ter que ser amarrada.


Esse moço, acho que ele é meu namorado.

Ele veio aqui com a roupa do corpo,

Mas eu sei que ele é importante.


Gustavo, Gustavo, não!


Porque meu avô é importante,

Ele é desembargador.


Escuta, isso aqui não é delegacia,

É um hospital psiquiátrico.


Boa tarde doutora, ela está em surto

E o psiquiatra recomendou internação.


Me dá um cigarro?


Tem dez anos que eu estou aqui.


Daniel M. Laks

16/11/2009

sábado, 24 de outubro de 2009

O estourador de bolhas

Tive que quebrar os óculos,

Para aprender a enxergar o mundo.

Tive que semear o céu,

Para perceber o furacão.


Fixei os olhos com força na multidão,

Para entender que a massa é deveras desfocada.

(Agora trago comigo esse refrão)

Pois quem navega em ilusão,

Veleja num mar sem enseada.


Daniel M. Laks

23/10/2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Sobre como besouros encontram alimento

Sílabas se cortam com a língua.

Entrelaço seus dedos

Para formar palavras,

Ou os versos que esqueci nas tempestades.


Tateio nessa escuridão,

Inventada pelas cortinas,

(mapa de estrelas desenhadas)

Para no fundo dos seus olhos castanhos

Encontrar o lugar onde as flores nascem.


Daniel M. Laks

10/10/2009