segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lembranças, influências estilísticas e objetos perdidos

Eu hoje passei pelo mirante da praia do Leblon e, de repente, lembrei de você com aquele casaco azul que a gente perdeu. Aquele casaco que quando você encosta na mureta a onda faz sombra na pedra e


Eu tremendo os dedos, tremendo os lábios, pensando em pegar um cigarro, juntando os dentes, olhando pros seus lábios.


Eu hoje passei pelo mirante da praia do Leblon, e é engraçado porque eu passo por ali todos os dias voltando do trabalho, mas hoje eu vi você com aquele casaco azul, antes da gente ter perdido no hospital psiquiátrico, e quis ir correndo pra casa te ligar. Quis ir correndo pra casa tirar do meu corpo o cheiro da mulher que eu dormi depois que você foi embora, e te ligar só pra dizer que eu hoje passei pelo mirante da praia do Leblon.


E talvez você me perguntasse se eu não passo por lá todos os dias, e eu ficaria meio sem ter o que dizer, e pensando agora, realmente soaria falso te ligar só pra te dizer que eu hoje passei pelo mirante da praia do Leblon e, de repente, me veio a sua imagem com aquele casaco azul. Eu acabaria me desculpando por pedir que você fizesse do meu desespero a sua prioridade,


Lembra, naquele dia?


Depois, meio sem graça, perguntaria algo banal, ao estilo, como foi o chope com a Marininha? Depois vocês foram para algum lugar? E por você me conhecer tão bem entenderia naquela última combustão de voz, naquela impossibilidade de relaxamento das cordas vocais


Você ainda dorme cedo?


Você tem passado pelo mirante da praia do Leblon?


De forma que eu acho melhor não te telefonar a essa hora, até porque você dorme cedo, você acorda cedo, e a gente já perdeu o casaco azul, a gente já perdeu a sombra que a onda faz na pedra


Realmente, deve ser melhor não te telefonar a essa hora. Deve ser melhor não te telefonar a nenhuma hora


Mesmo na hora que eu passar pelo mirante da praia do Leblon, olhar pro mar e ver você com aquele casaco azul e a onda, fazendo sombra na pedra.


Daniel M. Laks

17/05/2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dos efeitos corrosivos do suco de limão


Não sei se eu aqui sou eu.

Estou mais para um tipo de mosaico,

Daqueles de espelho de banheiro.

Retalhos do que me identifico formando identidade.


Marcas textuais,

Grifos meus,

Palavras roubadas do dicionário,

E uma ausência sufocante de presenças.


Tantas coisas se misturam

Na minha cabeça, nesse momento.

Eu hoje falei com Ela

E é dia de lua nova.


O céu estava escuro,

Porque é difícil ver

Estrelas em Copacabana,

E a garrafa de vinho acabou de acabar.


Os labirintos da cidade onde moro

Não tem fios de lã para encontrar a saída.

Apenas cabos de alta tensão

E um emaranhado de pombos equilibristas.


Se eu tivesse olhos pontiagudos,

Furava a indiferença das coisas,

A palidez desse retângulo de árvore morta,

Para encontrar alguma coisa perdida em mim.


Acho que procuro subjetividade exilada,

Sem renunciar a potência das paixões.

Mas prefiro me sujar de tinta

A me purificar pelas palavras.


Daniel M. Laks

14/05/2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Duas quadras efêmeras

O nosso amor teve jeito de quase,

Gosto de sica que seca o dente,

De interrupções, e de acidente

De acidez acometido.


Foi ponto de interrogação ao final da frase,

Fruta verde arrancada do pé.

Foi tudo o que em si poderia ter sido,

O que de fato Amor não é.


Daniel M. Laks

10/05/2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tudo que é muitos não é inteiro

Tanta metafísica na desordem do mundo

E eu na discursividade transitiva das coisas,

Na cristalização subterrânea das verdades,

Sem ligar “porquês” à causalidade da ardência dos meus olhos.


Não sei desenhar o cheiro das árvores,

O canto dos pássaros,

E é bem verdade que meus metros de tinta

Me servem para muito pouco.


Sim, minhas pernas continuam a tremer durante a noite,

E acho que não me levam a outros lugares

Por causa dos pulmões pesados de ferrugem,

Ou qualquer outra engrenagem desdentada pela fugacidade do momento.


Me prendo a tapetes bagunçados,

As lembranças esquecidas no quadro de cortiça,

A sexualidade vegetal ressecada no canto da sala,

E ao estrondoso som do silêncio das formas.


Sou as asas da improbabilidade matemática,

A esquizofrenia do verbo e a impotência das representações.

Sou o resto do que evapora na simbiose paralítica do cotidiano

Quando os fios de barbante da aurora rasgam as ondas do mar.


Daniel M. Laks

07/05/2010

sábado, 3 de abril de 2010

Um poema de amor

Não sei se é discurso de corpo mutilado

Quando me sinto entre parêntesis,

Entre quatro paredes nuas e brancas,

Na claustrofobia da ética da desistência.


Acho que me acostumei a escrever em preto,

E se fosse outra cor de tinta não sei se seria eu,

Tentando expressar aquele ainda não e um já era,

Sem nunca escrever o momento.


Toda linha traçada pela esferográfica

Mancha de tinta escura aquilo que já é passado,

Aquela representação das conveniências

Que as palavras expressam tão bem.


Nunca aprendi a pintar

Para dar cor ao que sinto,

Ou mesmo vermelho aos teus lábios nessa fotografia escrita,

Tampouco aprendi a me sentir no osso.


Retrato melhor a fumaça no espelho,

As figuras desfocadas na miopia urbana,

O lastro das cores que a sombra

Não permite antever.


Às vezes me falta melodia,

Alguma coisa que dê cálcio ás palavras,

Ou mesmo pontes de hidrogênio às lágrimas,

Me falta na escrita aquilo que une nossas bocas.


Me falta na voz a linha das mãos,

O entrelaçar dos destinos

Para quem acredita no acaso,

E mais alguma coisa que não sei bem expressar.


Demando uma palavra nova para dizer que te amo,

Daquelas que se adéquam perfeitamente

Ao que nem sabia que era possível sentir,

Para que entre os emaranhados de cordas encontremos uma única voz.


Daniel M. Laks

03/04/2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Acho que existem mais silhuetas à noite

Restos de congelados,
Fumos de cigarro
E alguma parte dispersa de mim
Que sempre foge.

A cidade hoje me parece mais cinza,
E alguma coisa disforme e fria
Estende-se à minha sombra,
Até escorrer da própria casca.

Não falo das preocupações cotidianas,
Da crise financeira mundial,
Ou da manchete da primeira página
Com fotos do último homicídio do dia.

Nunca doei ao Criança Esperança,
Não me revoltei com o sofrimento
Das vítimas do terremoto do Haiti,
E percebo que me revolto muito pouco hoje em dia.

Se tivesse olhos negros,
Talvez visse um mundo
Com mais cor de chumbo,
E assim teria mais vontade de gritar.

Mas por algum motivo
Permaneço estático e instável,
Procurando alguma pista
Que me faça entender porque você vai embora.

Daniel M. Laks
03/03/2010