sexta-feira, 22 de junho de 2012
Versos de infância
terça-feira, 12 de junho de 2012
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Se romances navegassem em palavras aportaria um das nossas conversas. Por isso os dedos de esfinge. Não se trata de sulcar o lápis recém amolado até navalhar falas espontâneas de amor rasgado. Não tenho você para além das marcas textuais. Com um pouco de nanquim talvez pudesse inventar aos olhos algum arbítrio para contrariar os lábios, para se perder em labirintos rasurando o contorno dos corpos. Porque falta entre as minhas palavras e o seu corpo, entre o meu corpo e as suas palavras uma intimidade física para além desse bloco de letras. Por isso que às vezes sinto que deveria lhe escrever em outra língua. Uma língua outra ou dialeto qualquer, contanto que fosse outra. Contanto que fosse, mesmo que só um pouco, afastada de mim, distante como a saudade. Contanto que fosse, mesmo que só um pouco, bastarda às minhas emoções, alforriada da minha carne. Língua diferente da língua que eu sinto. Porque depois de evaporar de silêncio aqui sempre chove em palavras, e é por isso mesmo que tenho com elas essa intimidade líquida. Se fosse por grafite ou pedaços de carvão eu virava do avesso e desenhava alguma sensualidade mais áspera nas curvas, uma loucura de fim de ato no fechar de cortinas das letras, mais atrito ao interromper as sílabas de almas sujas de canções. Porque gesto e corpo é mais preciso do que texto e ponto para ser voz além da fuligem dos lábios. E palavras sempre escapam do morder dos muros para deixarem de ser expressões de alguma representação ornamentada, e deixarem de ser costura de vidro estilhaçado para mosaico de real na fronteira dos sonhos, e deixarem de ser sentido, signo, memória ou corpo se tornando som para deixarem de ser.
Daniel M. Laks
24/10/2011
domingo, 18 de setembro de 2011
A boca quase junto à minha a desenhar frutos vermelhos a respirar pra cima é muito importante lembrar-se de respirar enquanto os pés ainda tocam o chão tenho pensado em usar mais contrações pra aproximar as palavras os corpos os copos num brinde de mãos distantes os mitos vivem das suas potências as quedas d’água têm mais pressa está ouvindo o barulho ao fundo deve ser tambor acho que hoje é dia de dança esquece mais os óculos o sol se planta em qualquer lugar ainda não assisti àquele filme a gente devia viajar pro meio do caminho por um pouco mais de saliva escrevia um poema com menos pausas menos deuses muito castos pro clima tropical menos quinas pra perfume nas flores de papel tem areia fina de chão os pássaros daqui estão por demais desgastados pro azul do céu acho que não vou divulgar este texto entre as paredes do quarto ainda se esconde atrás de perguntas quanto custa uma passagem pro sul qual é mesmo a cor dos seus olhos em meio às pontes de tinta?
Daniel M. Laks
18/09/2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Como se não bastassem as últimas espirais de luz a latejar na atmosfera improvisando o azul, a moça ainda tinha nos olhos o contorno abrupto dos naufrágios. Eu do lado avesso de mim a fabular caravelas de papel rumo ao farol. Nenhuma gota de terra no céu. Apenas minhas alegrias de por do sol engarrafadas em tubos plásticos de tinta preta a lamber o oceano de nuvens. Essa parece um carneiro, essa outra parece um dragão e já esta outra tem um formato de tubarão que aos poucos vai ganhando pulmões e patas e presas de marfim até se transformar num elefante africano que se desfaz tão de repente quanto minhas sílabas relampejadas e já deixa de ser elefante e palavra e nuvem e já deixa de ser peito em brasa embrulhado pra presente em arame farpado. Ainda nenhuma gota de céu na terra. Como se não bastasse o contorno abrupto dos naufrágios nos olhos da moça, as últimas espirais de luz ainda latejavam na atmosfera improvisando o azul. Depois tem pressa que hoje o tempo é líquido e daqui a pouco precipita chover.
Daniel M. Laks
26/08/2011