sábado, 14 de junho de 2014

Vejo as pessoas muito mais revoltadas com as vaias contra a Dilma do que com as prisões arbitrárias de jornalistas, professores e manifestantes. As pessoas estão mais revoltadas com vaias em um jogo de futebol do que com o fato de pessoas no exercício do seu trabalho ou no seu direito de manifestação terem sido torturadas por policiais militares. Ví falas de políticos diversos sobre o absurdo de se vaiar a presidenta, não vi nenhum vídeo de representantes públicos exigindo a punição exemplar dos policiais que prenderam arbitrariamente e espancaram professores, prenderam arbitrariamente e espancaram a jornalista que fazia cobertura da manifestação, dos policiais que assassinaram a Claudia e tantos outros. Alias, lembro do depoimento da nossa presidenta quando um policial tomou uns tapas dos Black blocs exigindo punições exemplares para estes. Gostaria de ver, por toda a história da Dilma, ela como protagonista da luta pela necessidade de se punir exemplarmente policiais assassinos e torturadores, policiais que forjam flagrantes e fazem prisões arbitrárias! Expulsar da corporação e prender! Afinal, bandido bom é bandido preso! Por favor, corrijam-me se eu estiver equivocado. Se houver um depoimento da Dilma, do Lula ou de outro político que se importe mais com tortura, prisões arbitrárias, estilhaços de bombas, assassinatos diversos nas comunidades e com a necessidade de expulsar e punir exemplarmente esses bandidos fardados que chamamos de polícia militar, por favor, compartilhem comigo. No mais, para mim, foda-se que vaiaram ou aplaudiram durante uma partida de futebol. Foda-se se era todo mundo branco ou se o Cafu e outros negros estavam também neste setor da arquibancada. Foda-se tudo isso, porque tem gente sendo presa arbitrariamente, tem gente sendo torturada, tem gente sendo assassinada. Tudo isso por agentes do estado e isso me revolta muito mais do que vaias ou aplausos em uma partida de futebol!

Daniel M. Laks
14-06-2014

sábado, 17 de maio de 2014

Escrever é a arte de encontrar caminhos possíveis

Daniel M. Laks
17-05-2014.

domingo, 20 de outubro de 2013

Sorte de quem tem



Hoje fui visitar uma professora amiga que combinou de me emprestar alguns livros. Quando cheguei ela foi logo me dizendo:

- espero que não tenha medo de cachorro.
-não, não, adoro animais, respondi com um sorriso no rosto.

Assim que eu entrei, uma cachorra golden retriever que estava na cozinha começou a latir sem parar. Tentei fazer carinho nela para ver se ela se acalmava, mas meu contato só a deixou mais agitada. Durante os quarenta minutos da minha visita, a cachorra permaneceu muito excitada e fez muita bagunça na cozinha. Enquanto conversávamos ela latia. Depois parou de latir, fez suas necessidades ali mesmo, deitou no chão e ficou olhando para a nossa cara.

- Ai meu deus, essa cachorra já cagou o chão de novo. Estou ficando doida com ela.
- Ela ainda está aprendendo a usar o banheiro? Perguntei meio sem saber o que dizer.
- Na verdade ela é do meu filho. Ele foi viajar e não tinha com quem deixar. Aí deixou comigo. Graças a Deus ele volta mês que vem. Já não aguento mais chegar em casa tarde da noite da universidade e ainda ter que limpar coco pela cozinha inteira.
- É. Nossa, e ela é bagunceira mesmo. Isso deu pra perceber.
-É sim, ela é bastante. Mas sabe? Isso pra mim é um gesto de amor. Eu estou ajudando meu filho que está longe. E ele ama tanto ela. Ela é também um pouco do amor dele perto de mim.

Saí de lá com dois livros incríveis nos braços e um vazio sufocante no peito.


Daniel M. Laks
18/10/2013

sábado, 5 de outubro de 2013



Quase que ando sozinho por tantos lugares,
Passei hoje distraído e jurava que era você.
Vê se pode? Agora de saudade te vejo pelas esquinas...
(Respira baixo para as pessoas,
É para os deuses que se sopram as melodias).
Mais um dia de lágrimas presas nas ventanias.
Sempre teve muita secreção no meu verso.
Mais um copo de cerveja que por pouco hoje não é sábado.
Desculpa se evito seguir as rimas,
Mas não sei se hoje é noite de lua...
Por enquanto uma pequena balada de amor e de saudade,
Daqui a pouco eu chego e te tomo de novo nos meus braços.

Daniel M. Laks
06/10/2013

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Quando primeiro se aproximou da ideia de praticar kung-fu, colheu a informação que existia o kung-fu e o kung-fu tradicional. Decidiu prontamente pelo kung-fu tradicional, que parecia muito mais interessante, mesmo sem saber muito bem o que significa essa tal de tradição. A primeira resposta veio inclusive antes da pergunta serpentear na sua cabeça: o tradicional é aquele que os monges treinavam no templo. Assim, alimentado por filmes de arte marcial e seriados de televisão, se inscreveu na academia e foi aos poucos transformando seu jeito de andar, de falar, seu jeito de se vestir e demais hábitos de vida diária numa cópia de monge chinês com a quase inconsciência de ser imitação que sustentava com pilares tortos a sobrevivência do reflexo. Não se dava conta, mas a primeira abordagem ao conceito de tradição revelava uma ideia velha, imperturbavelmente ela mesma, quase inexaurível e quase eterna, afastada de qualquer solavanco, avessa a qualquer possibilidade de ruptura. Deve ter sido a ausência de movimento que condenou a ideia à estagnação, depois veio o fim da vida e se alimentou da carcaça. Nessa altura, ele teve que se afastar pra poder ver, e mais de longe o reflexo virou sombra. Foi muito depois que aprendeu que toda tradição nasce de uma ruptura. Uma onda que traz movimento ou um movimento que traz onda, engolindo as práticas anteriores para que o novo possa estabelecer-se como tradição. A ruptura que germina a tradição é ainda o movimento das rodas dentadas das suas entranhas, a cada geração um novo surge para conservar-se tradicional. Já os gregos haviam percebido a coesão em conflito dos conceitos opostos, esse jogo de ideias que se pertencem e se reclamam, que nascem de uma mesma raiz e se contrapõem para construir uma unidade dinâmica. A palavra tradição vem do latim: traditio. O verbo é tradire, e significa principalmente entregar, designa o ato de passar algo para outra pessoa, ou de passar de uma geração a outra geração. O verbo tradire tem também relações com o conhecimento oral e escrito. Isso quer dizer que, através da tradição, algo é dito e o dito é entregue de geração em geração. Bem certo que os gregos e o latim têm muito pouco ou nada a ver com os chineses, e como nunca estudou chinês para saber, não tinha a menor ideia da origem da palavra tradição no idioma asiático, e tampouco, se os possíveis usos e significados entrelaçam-se nas línguas diferentes. Ainda assim, aprende com o kung-fu de seu shi-fu a linguagem para expressar o que é seu próprio, e aos poucos se sente inscrevendo e sendo inscrito no conceito de tradição que cabe nas suas ideias.
 
Daniel M. Laks
02/09/2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Versos de infância


              
                I

Em graus da gente,
Que a gente esconde da gente,
E se esconde da gente, não rima,
Vento não rima,
No cais não rima,
Vela apaga no vento
E quebra na onda, não rima,
Que é turvo escrever no mar.

                II

Tem sempre um carinho que não dói de ser carinho
Porque pra ser carinho não tinha que doer
Mas se dói a dor de ser carinho
Pode ser carinho sem carinho ser.

                III

Na base do copo FAB: 19 08 11 14:56 VAL: 02 11 11 SERAC que o copo era de requeijão copo de vidro desses que tinha algo dentro e tinha algo fora que junto com todo o resto não se destaca em nada de todo o resto e nem de mais nada e nem de mais resto na desordem suturada das coisas que a gente faz pilha na mesa e espinha na cadeira do lado que já é estante que tudo tem um deslugar no seu lugar.

Daniel M. Laks
22/06/2012

terça-feira, 12 de junho de 2012


Faltam campos faltam campos na cidade onde eu moro faltam campos e os prédios fazem eco fazem eco da superfície das palavras das palavras de agulha de vitrola pra colher flores faltam campos de agulha de vitrola pra colher flores fazem eco desatadas de palavras fazem eco desenhadas com cuidado pra colher flores versos simples pra fazer eco de flores de vitrola versos de agulha de palavra gesto de palavra toque de palavra tato de palavra eco pra colher flores pra te dar de presente.

Daniel M. Laks
12/06/2012