quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sobre cristais, uvas e vapores

Parece que os dias se misturam

Quando os processos se repetem

Boa tarde, com licença:

Já me cansei do automatismo das relações.


Os homens do bar discutiam futebol,

As pessoas na rua corriam para lugar nenhum,

O menino cheirava cola e pedia dinheiro para comer.


A menina que nunca me beijou

Me deu os versos que escrevi.

Esbocei um sorriso, mas talvez fosse sarcasmo.


Taça de cristal, vinho no gargalo

E os cacos derramados no chão.

Uvas perdem a cor quando lhes tiram a casca.


A moça que eu namorei

Aprendeu que o mundo compra imagens,

Decidiu se vender barato

E virou reflexo.


Não sei se foi a claridade,

Que entrava oblíqua pelo vidro da janela

E rasgava as retinas,

Ou algum desejo intenso dentro de mim.


Se fosse outro dia

Tinha olhado para o lado.

Se fosse outro dia tinha apertado os olhos...

Não era!


Paixões ardentes, vapores e alcalóides.

Os heróis e suas glórias vivem nas páginas dos livros.

Mas hoje eu quero qualquer coisa

Que não entre para os autos da humanidade.


Daniel M. Laks

26/08/2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre ventos e marquises

Acontecimentos perdidos no éter dos relógios.

Enchendo o peito de ar

Pra disfarçar o vazio dos pulmões.

Apenas pressa de se ter pressa.

A notícia de hoje e o peixe de amanhã.

A ilusão linear das espirais vistas de perto.

Agulha e linha pra tudo que rasga

Quando se corre atrás do vento,

E desperdiça a tempestade nas marquises.


Daniel M. Laks

17/08/2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desejos

Que meu verso

De palavra cor

Seja sempre inverso

Onde quer que for.


Que meu verso incompleto

De palavra cortada

Seja apenas objeto

Moldado a fogo, vento e mais nada.


Daniel M. Laks

11/08/2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Fragmento do portal de entrada do vale das sombras

Onde houver fogo seremos gasolina,

E a ausência de voz em todo grito.

Seremos a verdade por trás de todo mito,

E a distância do vale à colina.

Seremos a paz de quem lucra com a guerra,

O preço da bala e o custo da vida,

O acerto daquele que sempre erra,

A crença daquilo que se duvida,

E do caminho o passo primeiro.

Mas seremos apenas desperdício e impaciência,

A parte mais humana de toda a violência,

E o resto de tudo aquilo que não se faz inteiro.


Daniel M. Laks

30/07/2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sobre versos, Deuses e ninfas

Alguma fala inacabada

E dois copos pra brindar a ironia.

Entorpecentes pra acalmar a noite,

E otimismo em gotas pra aturar o dia.

Intensidade desperdiçada

Nos versos consumidos pela brisa pouca,

E quando Eco morreu nas montanhas

Restaram apenas as respostas gastas

De uma fria voz sem boca.


Daniel M. Laks

28/07/2009