quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tapar os olhos embaçados de grande angular hesitante tremendo de medo desse lado do sofá não te digo mais oi já estou atrasado para comprar um copo de café ligar a televisão pular o muro com dentes de caco de vidro mudar de canal tenho comido muito chocolate parei de fumar voltei a freqüentar o cinema da esquina tomar sorvete finalmente comprei aquele livro que nunca conversamos sobre Inventar alguma graça mais fácil que ser corte a flor da pele por hoje acordei engasgado de música de vitrola com exageros triturados para mais uma história de intervalo está com cara de dia nublado tenho vontade de escrever algumas linhas olha que horas são que bom que não te encontro mais pra acabar com minhas fantasias de matinê já está ficando tarde calma agora respira

Daniel M. Laks
13/04/2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quase um drink mexicano

Seu sorriso azedo nos meus lábios salgados.

Meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado.

Até que de tanto repetir-se
Tudo perde o sentido:
As palavras Os corpos O gesto O desperdício.

Aí você vai embora,
Bate a porta
E me deixa a céu aberto

Daniel M. Laks
23/11/2010

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De iniciar conversas gravadas Mastigar balas de hortelã Observar lagartixas mariposas esperanças E de repente até volto a tocar em vinil Meus próprios sonhos de cacos de vidro Eu já de tarde todas as manhãs Eu pirata palhaço folião Eu maremoto repetido das mesmas metáforas Eu leitor voraz de linhas de horizonte Eu com personagens que não me vestem bem Eu que viajo Eu que sincero Eu que escrevo como quem se corta Eu que sussurro súplicas á mão pesada Eu que trago um silêncio sufocado toda vez que grito Eu que deixo recado quando vou embora


Daniel M. Laks
21/02/2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Brincou de rodar a caneta entre os dedos como se assim conseguisse movimentar a roda dentada de suas ideias. Olhou pros lados tentando imaginar uma melodia qualquer, enquanto apertava os lábios ainda levemente salgados de silêncio. Fechou a mão com a força de quem sufoca deuses ou espreme o último sumo de um pensamento incompleto em busca da primeira linha. Como se puxar a primeira linha fosse desfiar o poema inteiro na folha de papel, ou expor suas costuras mais internas, dessas que podem ser cortadas com tesoura cega ou ponta de canino e pronto, deixaria de se sentir pesado de rascunhos que não cansam de engordar suas esperanças inseguras. Bordou caprichosamente letra por letra um recado que trazia espremido, quase desabotoado do peito: – Rasguei minhas folhas de papel/Porque quero a cidade que existe dentro do teu corpo:/Dos cavalos sem rédeas e tempestades com sede de saliva/Derramadas nas entrelinhas dos nossos olhares desencontrados./ Hoje eu Fliperama/ Decidi sair correndo – em rota de colisão –/Com tudo que é prédio, trânsito, baralho,/Mitologia e blues em mim. –. Depois pousou o carretel delicadamente ao lado da taça de vinho, tomou um gole para colorir o canto da boca de vermelho e riscou á faca toda sua sinceridade da folha de papel. Ultimamente, vêm se dando conta que suas verdades brutas se repetem em elipses digressivas demais para que a intenção irmane o gesto.


Daniel M. Laks
11/02/2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Já dobrei rasguei passarinhos de papel
Com cuidados desdenhosos
E aprisiocolecionei insetos verdes
Em potes de maionese em peitos furados a faca
Já criei novos mesmos versos antigos tão diferentes
Pros momentos de frio quentes demais pras palavras
Que nascem mortas nos pedaços inteiros de papel de pão
Que ofereço meus precipícios atropelados
Por postes de luz fria que se fingem de lua
Em troca de outra língua voz
Na minha caixa de lápis de cor
E o último primeiro verso
Da minha metralhadora máquina de escrever
----<Poesia interrompida>-------


Daniel M. Laks
01/02/2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

Provavelmente começaria de outro jeito, se esta carta estivesse sendo escrita para ser enviada para você. Passaria um bom tempo pensando qual seria o melhor tom pra não te dizer nada realmente sincero, não sei se você entende, mas é que eu tenho uma dificuldade muito grande de aceitar os ventos que eu não sopro. Por ser assim tão areia, e não deixar seguir com o movimento das marés, passei um tanto de horas prestando atenção nos começos e perdi o tempo das nossas histórias, tão sempre sem início. Não discuto que tudo o que rabisco em pedaços de madeira é para ser lido, o que pra mim é comum a tudo o que se escreve. Mas se eu fosse enviar essa carta para você, provavelmente começaria dizendo como está o Rio de Janeiro e te descreveria uma rotina que não é a sua e nem é assim tanto a minha, entende? Contaria meus projetos e planos, ou inventaria alguma coisa interessante para contar, porque eu tenho feito e inventado um bando de atividades para me manter ocupado. E logo começaria a te perguntar todas aquelas perguntas curtas que abrangem um mundo muito maior do que as páginas que você poderia me escrever, se eu fosse te enviar essa carta, e se, por acaso, você fosse dessas pessoas que responde cartas. Entende?

Mas a verdade é que hoje eu estava escutando o barulho do vento nos pinheiros e me deu uma vontade tremenda de dizer que adorei te encontrar e gostaria muito de te conhecer. Enfim, dizer que algo é “a verdade”, olhando agora, me parece um pouco forte demais e não sei se essa é “a verdade”. Pensando bem, a vontade de dizer já vinha de antes de escutar os pinheiros sussurrando as minhas sílabas que ainda estavam verdes. Você já sentiu que algumas frases fazem mais sentido depois do pôr do sol, ou que você, algum dia, leu alguma coisa pra que ela fosse indissociavelmente sua? Eu hoje pensei em te convidar para um desses lugares onde a areia relampeja os reflexos dourados das estrelas e o mar alcança mais longe que o castanho dos seus olhos. Um desses lugares que as flores têm o perfume de uma noite apenas, e que sempre existem nas possibilidades das folhas de papel lambuzadas com excessos de tinta: igualzinho a nós dois, ou àquelas lembranças metálicas do que chamamos sonhos.

Porque dentro de todo esse lirismo que eu recorro, pra fugir de te falar qualquer coisa que não se disperse no ar, eu sei que nós já tivemos nossos nós, já tivemos nossas noites e é por isso que você que agora é você já foi tantas antes de ser você. Eu me vejo escrevendo os mesmos turbilhões repetidamente e você sendo sempre você, mas em tantas formas, nomes e trejeitos, e sempre sem querer saber que algumas vezes eu sou nuvem, muro ou musgo, que acho melhor não te enviar essa carta, de escrita afiada em fruto tão verde. E eu espero que você entenda, mesmo sem nunca vir a saber, entende?

De qualquer forma, e apenas pelo abuso do sarcasmo que mimetize os dentes à mostra entre os lábios vermelhos, te agradeço pelos meus próprios versos e me comprometo a não aguar nenhum sorriso compartilhável.

Um beijo carinhoso algum dia,

E todas as coisas que eu sempre te repeti, mas nunca te disse.


Daniel M. Laks

29/01/2011