sexta-feira, 3 de junho de 2011

Se naquele momento eu tivesse cortado um pedaço da língua com dentes de guilhotina será que a gente se comunicava melhor? Porque com qualquer verdade dentro de mim agora te negaria um poema a canhões de confetes e fogos de artifício: desses de balões de éter com estrelas desgovernadas e naipes de saxofone em colisão com todo o silêncio que esfumaça dentro de mim máquina de costura em nuvens que desventam amanhã com a obra na casa do vizinho povoando os sonhos de marretas e britadeiras em atrito com os copos vazios ao lado da poltrona ou o torcer dos lábios perdidos que escorreram já a algumas ruínas de areia e se agora eu sangrasse toda a apatia vendaval amortecido dos seus olhos e te pedisse uma gota de mar você sereia a se afogar nas flores de olhos fechados das bocas dos mares profundos enquanto durar essa dança enquanto durar essa volta toda a indiferença do meu caleidoscópio de palavras pontiagudas esquecidas em cima do sofá.

Daniel M. Laks
03/06/2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tapar os olhos embaçados de grande angular hesitante tremendo de medo desse lado do sofá não te digo mais oi já estou atrasado para comprar um copo de café ligar a televisão pular o muro com dentes de caco de vidro mudar de canal tenho comido muito chocolate parei de fumar voltei a freqüentar o cinema da esquina tomar sorvete finalmente comprei aquele livro que nunca conversamos sobre Inventar alguma graça mais fácil que ser corte a flor da pele por hoje acordei engasgado de música de vitrola com exageros triturados para mais uma história de intervalo está com cara de dia nublado tenho vontade de escrever algumas linhas olha que horas são que bom que não te encontro mais pra acabar com minhas fantasias de matinê já está ficando tarde calma agora respira

Daniel M. Laks
13/04/2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quase um drink mexicano

Seu sorriso azedo nos meus lábios salgados.

Meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado
No meu corpo desperdiçado no teu corpo desperdiçado.

Até que de tanto repetir-se
Tudo perde o sentido:
As palavras Os corpos O gesto O desperdício.

Aí você vai embora,
Bate a porta
E me deixa a céu aberto

Daniel M. Laks
23/11/2010

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De iniciar conversas gravadas Mastigar balas de hortelã Observar lagartixas mariposas esperanças E de repente até volto a tocar em vinil Meus próprios sonhos de cacos de vidro Eu já de tarde todas as manhãs Eu pirata palhaço folião Eu maremoto repetido das mesmas metáforas Eu leitor voraz de linhas de horizonte Eu com personagens que não me vestem bem Eu que viajo Eu que sincero Eu que escrevo como quem se corta Eu que sussurro súplicas á mão pesada Eu que trago um silêncio sufocado toda vez que grito Eu que deixo recado quando vou embora


Daniel M. Laks
21/02/2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Brincou de rodar a caneta entre os dedos como se assim conseguisse movimentar a roda dentada de suas ideias. Olhou pros lados tentando imaginar uma melodia qualquer, enquanto apertava os lábios ainda levemente salgados de silêncio. Fechou a mão com a força de quem sufoca deuses ou espreme o último sumo de um pensamento incompleto em busca da primeira linha. Como se puxar a primeira linha fosse desfiar o poema inteiro na folha de papel, ou expor suas costuras mais internas, dessas que podem ser cortadas com tesoura cega ou ponta de canino e pronto, deixaria de se sentir pesado de rascunhos que não cansam de engordar suas esperanças inseguras. Bordou caprichosamente letra por letra um recado que trazia espremido, quase desabotoado do peito: – Rasguei minhas folhas de papel/Porque quero a cidade que existe dentro do teu corpo:/Dos cavalos sem rédeas e tempestades com sede de saliva/Derramadas nas entrelinhas dos nossos olhares desencontrados./ Hoje eu Fliperama/ Decidi sair correndo – em rota de colisão –/Com tudo que é prédio, trânsito, baralho,/Mitologia e blues em mim. –. Depois pousou o carretel delicadamente ao lado da taça de vinho, tomou um gole para colorir o canto da boca de vermelho e riscou á faca toda sua sinceridade da folha de papel. Ultimamente, vêm se dando conta que suas verdades brutas se repetem em elipses digressivas demais para que a intenção irmane o gesto.


Daniel M. Laks
11/02/2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Já dobrei rasguei passarinhos de papel
Com cuidados desdenhosos
E aprisiocolecionei insetos verdes
Em potes de maionese em peitos furados a faca
Já criei novos mesmos versos antigos tão diferentes
Pros momentos de frio quentes demais pras palavras
Que nascem mortas nos pedaços inteiros de papel de pão
Que ofereço meus precipícios atropelados
Por postes de luz fria que se fingem de lua
Em troca de outra língua voz
Na minha caixa de lápis de cor
E o último primeiro verso
Da minha metralhadora máquina de escrever
----<Poesia interrompida>-------


Daniel M. Laks
01/02/2011